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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Há dez mil anos atrás - Pleonasmo na dissertação de vestibular

Aqui estou eu, na bilionésima tentativa de manter postagens regulares no blog. Enfim. Vamos falar hoje pleonasmo, ou redundância. Não sabe o que é isso? Antes de ler a postagem, veja isto:





Pois bem, segundo o Houaiss, pleonasmo é:

"1 Rubrica: linguística.
redundância de termos no âmbito das palavras, mas de emprego legítimo em certos casos, pois confere maior vigor ao que está sendo expresso (p.ex.: ele via tudo com seus próprios olhos)
2 Rubrica: linguística.
excesso de palavras para emitir enunciado que não chega a ser claramente expresso; circunlóquio, circunlocução
3 qualidade do que vai além da suficiência; superfluidade, excesso, inutilidade"

Então pleonasmo é a repetição de ideias desnecessariamente através de palavras de significado semelhante. Convém, ressaltar, porém, que, ainda conforme o dicionário, o emprego é legítimo em alguns casos, como um recurso de ênfase.

Em relação ao texto dissertativo-argumentativo, é importante lembrar que deve ser redigido no padrão culto da linguagem, mantendo um vocabulário formal. Há, portanto, algumas redundâncias que devem ser evitadas  nesse gênero textual. Seguem alguns exemplos:

"Há 49 anos atrás, o Brasil entrou num dos períodos mais sombrios de sua história". Tanto "há" como "atrás" já indicam tempo passado. Portanto é desnecessária a repetição. "Há 49 anos" ou "49 anos atrás" está de bom tamanho.

"É preciso encarar de frente o problema da criminalidade entre adolescentes". Como é possível ver no vídeo, "enCARAr" já contém implícita a ideia de que é "de frente".

"Não podemos adiar para depois a discussão sobre o assunto". Só é possível adiar algo para depois, portanto é desnecessário o "depois". O que se pode utilizar é, por exemplo, expressões que determinem o tempo: "adiar para a próxima semana", "adiar para depois do feriado".

"O governo não tem outra alternativa senão investir mais na educação". Alternativa tem em si a ideia de "outro modo". "outra alternativa", portanto é uma redundância. Em um caso bem específico, pode-se usar sem constituir repetição desnecessária. Quando já foram dadas as alternativas, pelo menos duas, e se quer citar mais alguma: "As alternativas mais evidentes para o governo são a educação e a profissionalização. Outra alternativa é o uso de uma maior força punitiva".

"O JOVEM, devido à influência da mídia, ELE está cada vez mais consumista". Esse é o caso do que se chama de sujeito pleonástico. Na fala mais cotidiana, é muito comum. É um recurso inconsciente de repetição do sujeito através do pronome 'ele', principalmente quando se distancia do primeiro sujeito. Na escrita, porém, não devemos usar: "O jovem, devido à influência da mídia, está cada vez mais consumista".

Erro cíclico de redundância ¬¬
Outros casos comuns: premeditar (ou planejar) previamente; amanhecer o dia; melhora positiva; doido da cabeça.

Além disso, há casos de enumerações nas quais se usam sinônimos que tornam a ideia redundante: os políticos, em sua maioria, são corruptos, criminosos, ladrões. Entre ladrão e corrupto, dá para se estabelecer alguma diferença. Porém tanto um ladrão quanto um corrupto pode ser considerado criminoso. Portanto o uso da palavra 'criminoso' caracteriza uma ideia redundante. A propósito, a ideia, ou a forma como ela está sendo passada, é radical. Um eufemismo aqui cairia bem, mas isso fica para outra postagem.

Cuidado, então, com a redundância em seu texto dissertativo, bem como em outros textos formais, para não se auto-prejudicar-se a si mesmo.

Abraços.

Prof. Diogo Xavier

sábado, 23 de março de 2013

Enem, Miojo e abobrinhas da imprensa


Okay. Um estudante de engenharia civil decidiu fazer Enem ‘por fazer’ e, segundo ele diz, para testar o sistema mais rigoroso de correção do Enem 2012, escreveu no meio do texto um parágrafo instruindo como se faz um ‘delicioso miojo’. Tirou 560.

Está iniciada a polêmica. A mídia espalhou a redação como bandeira da ineficácia da avaliação das redações do Enem. E praticamente todo mundo reproduziu o discurso.

Clique para ampliar
De fato, foi inusitada a pausa para ‘miojo’, porém, como um todo, trata-se de uma produção que possui um nível razoável, sem graves erros gramaticais. O texto desenvolveu o tema dentro dos limites do gênero dissertativo-argumentativo, mesmo que abordando de maneira previsível e próxima ao senso comum. Houve uso de informações para argumentar e uma sugestão, ainda que superficial. Se não fosse a 'pausa para miojo', a nota seria maior. Eu avalio que entre 600 e, no máximo, 700.

Quem conhece os critérios de correção do Enem, sabe que 560 não é uma nota extraordinária e nem é muito mais alta que a nota que eu daria, ignorando o ‘parágrafo culinário’, com base nos parâmetros do Enem. Não houve desrespeito aos direitos humanos, menos de 7 linhas nem fuga total do tema. Esses são praticamente os únicos fatores que anulam a redação. Para saber mais sobre as competências avaliadas na correção da redação, clique aqui. Trata-se do Manual de Redação do Enem 2012. A propósito, fuga total do tema é quando o texto inteiro está fora do tema proposto, o que não foi o caso. 

O Enem avalia a capacidade de expor ideias sobre um tema, defender um ponto de vista por meio de argumentos e propor uma solução ou forma de conscientização social. Tudo isso na variedade padrão da língua. 

Com essas queixas geradas pela mídia ávida por polêmicas e pelos desinformados, ocorrerão mudanças nos critérios de correção. O que é negativo. Meu medo quando o Enem passou a ser adotado para os vestibulares foi que ele se tornasse mais mecanizado e menos preocupado com a contextualização de conhecimentos práticos no dia a dia. É o que está acontecendo com a redação do Enem. A pressão da mídia (e de quem reproduz os discursos dela) é para que a correção passe a contabilizar erros (como nos vestibulares tradicionais), em vez de considerar o texto como um todo, como uma unidade de sentido, cujo objetivo maior é transmitir e defender opiniões, além de propor soluções viáveis para problemas abordados. Com isso, o que era um Exame Nacional do Ensino Médio, uma avaliação fundada nas concepções mais atuais de educação, passa a ser um simples vestibular unificado.

Não digo que a correção do Enem é impecável: são muitas redações, muitos corretores, pouco tempo. Enfim, falhas podem ocorrer, mas, do caso dessa redação, não houve motivos para anular, nem para uma nota muito abaixo da que o texto obteve. Portanto, a meu ver, a nota dessa redação não prova nada. O fato é que a maioria das pessoas fala muito sabendo pouco. Reclamem com propriedade, não reproduzindo discursos sem ao menos se informar.


P.S.:
1. Muitos dos que escreveram nas redes sociais demonstraram que não chegam perto da competência na escrita que o autor do texto em questão possui.
2. Ninguém chega para querer mudar a forma como engenheiros civis projetam construções (a não ser eles mesmos). Da mesma forma, ninguém se mete a dar pitacos na forma como um cirurgião procede, ou como um oncologista trata uma pessoa com câncer. Creio que ninguém se propõe a questionar a forma como químico trata a água, ou faz ligas metálicas. Eles passam anos e anos estudando, se preparando, treinando, adquirindo experiência, por isso eles trabalham com o que trabalham. Por isso confia-se no trabalho deles.

Como no Brasil a educação não é levada a sério, qualquer brasileiro se acha educador, conhecedor das teorias da educação. Qualquer um acha que sabe ensinar, que sabe como se corrige uma redação, como se procede uma avaliação.

Se qualquer pessoa buscar, numa biblioteca universitária, estudos sobre avaliação, encontrará inúmeros artigos, monografias, teses, dissertações, frutos de pesquisar, discussões, experimentos, diálogo entre especialidades (psicologia, psicopedagogia, linguística, educação, sociologia, antropologia, etc.). Se buscar sobre o ensino da produção textual encontrará inúmeras outras produções. Um profissional da área de educação precisa de apropriar de tudo isso ao longo de sua formação, e mesmo ao longo de sua atuação profissional. O ENEM e os PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) são construídos com base nesses estudos e estão em constante discussão.

Por quê, então, o ilustre cidadão brasileiro insiste em se achar especialista do ensino da língua e da avaliação de redações?! A imprensa o faz porque precisa de polêmicas para gerar audiência. Cabe ao cidadão se informar antes de propagar discursos prontos, baseados na ignorância e total falta de informação.
Outro exemplo disso tudo? Eu já publiquei AQUI.

(Um tanto longo para um post scriptum, mas a revolta foi grande)

Bem, grande abraços a todos. Deixo aberto o espaço para discussão, desde que sem baixar o nível e respeitando a opinião alheia.

Professor Diogo Xavier

tags: enem 2012, redação, miojo, imprensa, receita

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Volta às aulas - por que crase?

Como estou tentando manter o blog em ritmo constante, vou postar alguma coisa, mesmo que curta, estilo "pílula". Como tenho que preparar 6 aulas para amanhã e ainda acordar às 4:30 para ir à escola, esta será bem curta. 

Aproveitando a volta às aulas, vou explicar o porquê do acento grave ( ` ) na expressão.

Há muito tempo eu penso em fazer um post sobre crase, mas tem que ser algo bem detalhado, explicado e exemplificado, porém o tempo não tem permitido.

De qualquer forma, cabe uma explicação rápida. CRASE é o 'encontro' de dois sons vocálicos idênticos, o que quase sempre provoca uma pronúncia contraída, ou seja, fala-se apenas uma vez e não duas.
Exemplo: Gostei desse espelho > Geralmente pronuncia-se: Gostei dessespelho / dessispelho (a pronúncia varia conforme a região). Eu disse GERALMENTE, pois há quem pronuncie as duas vogais de maneira diferente: "dessiespelho". Devo ressaltar que essa contração não interfere na forma de escrever.

Enfim, isso é CRASE.

Em alguns casos específicos, quando o fonema "A" se repete, ele é escrito e pronunciado como um só:
Exemplo: Trabalho próximo àquela casa que seu primo comprou.

Na expressão em questão, temos PREPOSIÇÃO A+ A ARTIGO.

Vejamos: Volta às aulas.
Volta: substantivo feminino abstrato. Quando significa "regresso", "retorno", essa palavra necessita de uma complementação, que vai especificar a situação ou o lugar aonde se retorna. Ou seja, um complemento nominal. Esse complemento é antecedido da preposição A. Por outro lado, o substantivo "aulas" está definido, portanto é acompanhado pelo artigo definido, feminino e plural, no caso em estudo.

Então fica assim: VOLTA A (preposição) + AS (artigo) AULAS.
Nesse caso, ocorre crase, portanto os dois sons vocálicos são escritos como um  só, e um acento grave sinaliza a existência de duas vogais.
Portanto: VOLTA ÀS (A+AS) AULAS.

Ok. Essa pílula ficou um pouco grande e difícil de engolir. Falha nossa.

Bem, até a próxima.

Diogo Xavier

domingo, 27 de janeiro de 2013

Lembre-se do verbo lembrar

Lembre-se do verbo lembrar: uma questão de regência


Esta postagem será breve. Espero. O verbo LEMBRAR possui dupla regência, ou seja, existem duas formas de ele se relacionar com o seu complemento. É importante conhecer essa dupla regência na norma padrão, para usar adequadamente em contexto formais.

Curiosidade: o verbo LEMBRAR derivou, ao longo de muito tempo, do verbo memorar, do Latim. Foi mais ou menos assim: memorar > mem'rar > nembrar > lembrar.


Vamos à regência. Com o significado de trazer à memória, recordar, esse verbo pode se apresentar assim:

VTD ou Bitransitivo: 

* Rimos muito enquanto lembrávamos as aventuras do tempo de escola. (Verbo Transitivo Direto - liga-se ao complemento sem preposição: "as aventuras")

* Lembrei ao meu amigo o acordo que havíamos feito. (Bitransitivo - liga-se a um complemento com preposição: "A o meu amigo"; e a outro complemento sem preposição: "o acordo")

Nesse caso, o complemento que constitui "aquilo que é lembrado" liga-se ao verbo diretamente, sem preposição.

PRONOMINAL
Obs.: Verbo pronominal é aquele que se acompanha de um pronome oblíquo da mesma pessoa que o sujeito (eu>me / ele>se / nós>nós, etc.)

* Poucos se lembram dos mais necessitados. (O verbo é acompanhado do pronome oblíquo 'se' e o complemento liga-se ao verbo com uso de preposição: "dos [DE + os] mais necessitados").

Quando o verbo lembrar é usado como pronominal, o seu complemento deve ser antecedido pela preposição 'DE'. Portanto, nessa situação o verbo é transitivo indireto.

A princípio, o significado é o mesmo (Poucos lembram os mais necessitados / Poucos se lembram dos mais necessitados), a menos que esse verbo seja usado como BITRANSITIVO (lembrar "algo" "a alguém"), pois nesse caso o complemento que indica o "elemento lembrado" não poderá ser acompanhado de preposição.

Então o que determina a escolha? A vontade do usuário. Vai depender do estilo, da sonoridade (no caso de textos artísticos) ou do gosto, pois o significado não sofre alteração.

O caso do verbo ESQUECER é bem semelhante, com a principal diferença de que ele nunca é BITRANSITIVO. Assim:
* Eu esqueci os documentos do carro (VTD)
* Eu me esqueci dos documentos do carro (pronominal e VTI)

Então, resumindo, o verbo lembrar, com o significado que consideramos, pode-se se apresentar assim:

VTD: Não lembro o que me deixou chateado.
Pronominal e VTI: Não me lembro do que me deixou chateado.

Não foi tão curto quanto eu esperava, mas enfim, é só isso.
Até a próxima!
Não esqueça de compartilhar nas redes sociais nem de comentar.

Diogo Xavier



tags: regência verbal, lembrar, lembrar-se, dicas, vocabulário.

Homônimo. Que danado é isso?

Homônimo. Que danado é isso? E um pouquinho de semântica.

No ensino médio, quando comecei a ler textos informativos com mais frequência e de nível vocabular um pouco mais complexo, entrei em contato várias vezes com uma palavra cujo significado eu desconhecia e nunca lembrava de consultar no dicionário.  HOMÔNIMO.

Vou abordá-la tanto na aplicação vocabular quanto na perspectiva da SEMÂNTICA, área da linguística que estuda  os significados.

Não lembro as frases em que li essa palavra, mas posso dar um exemplo simples: 
"O estudante de direito José de Alencar afirmou nunca ter lido as obras do autor homônimo."

Analisando a etimologia da palavra, temos, do grego:
homo (igual) + numos (nome) = nome igual, mesmo nome

Homônimo, portanto, se refere àquilo que tem o mesmo nome. No exemplo, "autor homônimo" indica que o referido escritor possui o mesmo nome. Qual? O do estudante de direito José de Alencar.

O livro e o filme ao qual deu origem são obras homônimas
Outros exemplos: "Tanto o filme quanto o livro homônimos 'As vantagens de ser invisível' têm o poder de prender a atenção até o fim'"; "O single 'Crazy', da banda Aerosmith alcançou várias gerações, diferente da música homônima do grupo Simple Plan, visto que não passou muito tempo nas paradas de sucesso".

Bem, agora partindo para a semântica, posso antecipar que as palavras HOMÔNIMAS são estudadas ao lado das SINÔNIMAS, ANTÔNIMAS e PARÔNIMAS. Vale a pena relembrá-las:

Sinônimas: palavras diferentes que possuem significados semelhantes ou que, em alguns contextos, podem ser trocadas sem alteração de sentido. Obs.: a linguística afirma que não existem sinônimos que possuem o MESMO significado em todos os contextos. Por isso, dizemos que são significados semelhantes.

Antônimas: são palavras diferentes cujos significados se opõem, são contrários ou incompatíveis: dia / noite; subir / descer.

Parônimas: palavras que, apesar de apresentarem semelhança em sua grafia e/ou pronúncia, possuem significados diferentes: despensa / dispensa; comprimento / cumprimento.

E por fim,
Homônimas: são palavras iguais, em um ou mais aspecto, que possuem significados diferentes. Conforme o tipo de igualdade, as palavras homônimas são subdivididas em:

Homógrafas: São iguais na foma de escrever. Exemplo: forma (ó) e forma (ô).

Homófonas: Possuem a mesma pronúncia, porém são escritas de maneira diferente, como: por que, porque, por quê e porquê; mal e mau (em algumas regiões, a diferença na pronúncia é notável, mas na maioria dos lugares, a pronúncia é a mesma)

Homônimas perfeitas: São palavras que possuem a mesma grafia e a mesma pronúncia, porém tem origem e significado diferentes. Exemplo: manga (parte de roupa, fruto, pasto, entre outros significados). Mangueira (árvore, tubo flexível, etc.).

Bem, já escrevi demais. Por ora, já chega.
Até a próxima.

Diogo Xavier

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