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A língua é uma das minhas maiores paixões - seja no campo da linguística seja relativa ao paladar. Este blog está centrado na primeira opção, mas de tudo um pouco pode ser encontrado aqui: leituras deleite, dicas, tira-dúvidas, análises linguísticas e tópicos de gramática normativa, curiosidades, humor e muito mais. Está esperando o quê?! Professor Diogo Xavier

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Frase, Oração e Período

Neste post vamos ver três conceitos simples, mas essenciais para iniciar o estudo da SINTAXE, que é o campo da linguística que trata da relação entre as palavras e orações no período. Pois bem. Antes de apresentar os conceitos, leiamos o poema a seguir, do escritor pernambucano Manuel Bandeira:
* para ir direto aos conceitos, vá às partes vermelhas sublinhadas.

EVOCAÇÃO DO RECIFE- Manuel Bandeira
Recife
Não a Veneza americana
Não a Maurisstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois -
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de
chicote-queimado e partia as vidraças
da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho
e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias
tomavam a calçada com cadeiras,
mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai! 

À distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)

De repente nos longes da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino
porque não podia ir ver o fogo

Rua da União...
Como eram lindos os nomes
das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chama do Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido 
Do lado de lá era o cais da rua Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe

- Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto
árvores destroços redomoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras 

Novenas
Cavalhadas
Eu me deitei no colo da  menina e ela
começou a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
- Capibaribe
Rua da União onde todas as tardes
passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim que se chamava midubim
e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas
que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom,
Recife brasileiro como a casa de meu avô. 

 
Vamos reler o trecho: "Fogo em Santo Antônio!"
No trecho em destaque, podemos observar que não há verbo, porém constitui um enunciado de sentido completo.
Em um outro contexto, como num filme de guerra, no início de uma batalha, a palavra 'fogo', sozinha, poderia constituir um enunciado de sentido completo, podendo, nesse caso, ser substituída por 'atirar!', um verbo e também um enunciado completo.
Podemos concluir que tanto uma palavra sozinha quanto um conjunto de palavras, possuindo ou não verbo, podem estabelecer uma comunicação de sentido completo. Dentro de um contexto, é claro.
A esse enunciado que transmite uma mensagem ou estabelece uma comunicação de sentido completo e pode ser constituído de uma ou mais palavras, com ou sem verbo, damos a denominação de FRASE. Exemplos: "Silêncio!", "Fogo!", "Façam silêncio".

A frase que não possui verbo é chamada de FRASE NOMINAL, enquanto a que possui verbo ou locução verbal é chamada de FRASE VERBAL.

ORAÇÃO é o enunciado que possui um verbo ou locução verbal. Por exemplo, "Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância", "A gente brincava no meio da rua".

Vamos ler agora a letra de Nando Reis, Não Vou me Adaptar:
  

NÃO VOU ME ADAPTAR  -  Nando Reis

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar (3x)

Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Não vou!

Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
Mas é que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou!
Não vou me adaptar! Eu não vou me adaptar!
Não vou! Me adaptar!...
 
Vou usar dois exemplos para ilustrar o próximo conceito.
1."Eu não encho mais a casa de alegria"
2."Eu não tenho mais a cara que eu tinha"

Numa breve análise dos dois enunciados, podemos identificar que ambas possuem verbo, sendo que a primeira possui um, e a segunda, dois.
Já vimos que a oração possui um verbo ou locução verbal. Portanto, o primeiro enunciado é constituído de uma oração, enquanto o segundo possui duas orações.

Essas FRASES VERBAIS constituídas de uma ou mais orações são chamadas de PERÍODO.
Quando possui uma oração, chamamos de PERÍODO SIMPLES, como no primeiro exemplo.
Já quando possui duas ou mais orações, recebe o nome de PERÍODO COMPOSTO (segundo exemplo).
Para resumir a relação entre esses conceitos (clique para ampliar):
 
 Dúvidas? Comente abaixo!
Sugestão de postagem?  AQUI.
Até a próxima!
  
Prof. Diogo Xavier
tags: frase, oração, período, simples, composto, sintaxe, gramática, oração

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Claudinha Santos - prosa poética

Citei minha amiga Cláudia no post anterior. Pois bem. Ela nutre maravilhosamente o blog "http://jogandoconversas.blogspot.com/", com suas frases impactantes, suas poesias, suas prosas poéticas, crônicas, enfim. E ela nem escreveu as histórias que tem pra escrever... 

Claudinha Santos por ela mesma:  Publicitária por formação, artesã por vocação e apaixonada pela escrita, Pernambuco, 1988. Gosto de ler Fabrício Carpinejar, Gabito Nunes, Martha Medeiros. Gosto de ouvir Jason Mraz, John Mayer, Maria Rita, etc.

 Aí vai uma degustação (clique no título para ver na página da autora):

Café. Um só, obrigado. 

 Claudinha Santos

 Acordar e tomar uma xícara de café bem quente resolve os meus problemas de mau-humor e solidão matinais. Logo ganho energia e disposição para sorrir e ver tudo positivamente, o intrigante é fazer café para uma só pessoa, fazer uma única xícara, isso sim que é difícil. Ainda mais porque não gosto de café de ontem nem de café que foi feito mais cedo, gosto de café de agora e quem inventou esse negócio de garrafa térmica não sabe o que é bom. Bom mesmo é café feito na hora, aquele que queima a pontinha da língua e te faz lembrar pelo resto do dia aquele gole de café logo de manhãzinha que te despertou. O primeiro bom dia pra quem está sozinho.
Mas não consigo fazer só uma xícara, e nem tenho ninguém do meu lado agora pra dividir tanto café. Também não gosto de café solúvel, não tem o mesmo sabor nem aroma, então sempre faço mais do que o necessário e jogo fora o que não deu pra tomar, esfria muito rápido.
Acerto sempre na quantidade para duas xícaras, sempre espero por acordar com alguém do meu lado pra não precisar mais desperdiçar. Nem café, nem amor.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Fabrício Carpinejar - leitura deleite

Por influência de minha amiga Cláudia Santos, conheci os textos de Fabrício Carpinejar. 
Quem é ele? Para quem não conhece, nada melhor que sua própria definição, em seu blog: "Escritor, jornalista e professor universitário, autor de dezessete livros, pai de dois filhos, um ouvinte declarado da chuva, um leitor apaixonado do sol. Quando conseguir se definir, deixará de ser poeta."

Pela linguagem e pelo dito, dá para perceber sua inclinação pela poesia e pela  crônica. Pois bem, vamos ao deleite; uma crônica belíssima e emocionante, principalmente para quem gosta de cachorro ou outros animais - tenho três cadelas; uma das quais bem velhinha. (clique no título para ler direto na página do autor)



COLHER DE SOPA
Fabrício Carpinejar


Cora, a cachorrinha de casa, ficava assustada na virada do ano. Ela se escondia debaixo da mesa, da cama, das cortinas. Uivava para as janelas. Seus gemidos lembravam molas de antigos colchões. Dentes rangendo de insônia. Não se aquietava até que os rojões serenassem em fumaça.

Na troca de 2011 para 2012, ela estranhamente dormiu e não acordou com nenhum fogo de artifício. Suspirava no sofá. Uma colher de sopa perdida na almofada.

Aquilo me intrigou. O animalzinho traduzia tranquilidade de coma: anestesiada, desaparecida em si. Respirava fundo, avessa aos tormentos dos fachos.
Princesa, minha cadela mais velha

Logo o animal que fugia dos trovões e das descargas elétricas nos morros.

A família se preocupou com a súbita quietude e fotografou seus movimentos nos dias seguintes. Quando ela caminhava de costas, invocávamos seu nome e ela não recuava. Batíamos palmas e ela sequer mexia o pescoço.

Reprisei que Cora não atendia nossa voz como antes, não obedecia pedidos para sentar ou deitar, não vinha na cozinha quando gritávamos "hora da comida", não abanava o rabo com a trilha sonora que Cínthya criou para ela.

Também latia menos e dormia o dobro.

Uma vitória-régia boiando na sala. Uma sanfona se coçando de vento.

Entrávamos de madrugada na residência e ela não respondia. Tínhamos que tocar em seu pelo para despertar uma reação. O tato era o seu último alerta.

As cenas foram esclarecendo os sintomas. Descobrimos que nossa cachorrinha está surda. Não escuta nada.

Despertou uma dor avulsa. Uma dor de azulejo de pares quebrados.

Cora não entende que foi ela que deixou de ouvir, mas acredita que nós deixamos de falar com ela.

Na cabeça da cachorrinha, sem explicação, todo mundo parou de procurá-la.

De repente, ninguém mais a chama, ninguém mais canta para ela, ninguém descreve as paisagens.

No seu universo preto e branco, a surdez é concebida como um castigo. Ela não sabe o que fez de errado para desaparecer o som de nossas bocas.

E treme de frio quando nos observa. Um frio de medo, não de vento. Um frio de quem precisa entender o que aconteceu. Olha longamente as vogais de sabão saindo dos nossos lábios e subindo aos céus. Palavras áereas, mudas, velozes.

Conto tudo assim porque amor é mudar, sempre mudar, sempre se adaptar. E nunca cansar de criar idiomas.

É agora pegar Cora mais no colo, é falar com as mãos, é se aconchegar ao seu corpo para que não mais estranhe o silêncio e reconheça os timbres pelo olfato.