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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um escândalo na Boêmia - Arthur Conan Doyle

Como comprometido com o 2º ano do Colégio Independência, estou publicando o conto de Sherlock Holmes que começamos a ler em sala.

Diogo Xavier


OBS.:

  • Texto retirado do site: http://mundoelementar.vilabol.uol.com.br/contos/umescandalo.htm
  • Título original: A Scandal in Bohemia
  • Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1891
  • Este texto digital reproduz tradução de A Scandal in Bohemia publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume II, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Um escândalo na Boêmia

Arthur Conan Doyle


Para Sherlock Holmes, ela é sempre a mulher. Raras vezes o ouvi mencioná-la de outra maneira. Era de opinião que ela eclipsava e se sobrepunha a todas as outras mulheres, e isso não porque estivesse apaixonado por Irene Adler. Todas as emoções, particularmente o amor, aborreciam sua mentalidade admiravelmente equilibrada, fria e severa. Creio mesmo que era a mais perfeita máquina de raciocinar e observar que o mundo jamais viu, mas como namorado ficaria numa posição falsa. Nunca falava das emoções sentimentais, a não ser por brincadeira e com desdém. Achava que era magnífico observá-las nos outros e excelente desculpa para ocultar os motivos e ações humanas. Mas, para um calculista como ele, admitir tais intrusões no seu fino, delicado e tão ajustado temperamento seria como introduzir um fator de perturbação que podia criar dúvidas nas suas conclusões mentais. Um grão de areia num instrumento delicado ou uma lente rachada não se tornariam mais destrutivos do que uma emoção forte numa natureza como a sua. Entretanto, existia apenas uma mulher para ele, e essa mulher era Irene Adler, que lhe excitava o cérebro com dúvidas e indagações diversas.

    Ultimamente tenho visto Holmes poucas vezes. Casei-me, e por isso não nos podíamos encontrar tão freqüentemente como antes. Minha completa felicidade e os interesses caseiros que começam a crescer ao redor do homem que se tornou dono do seu próprio estabelecimento eram bastantes para absorver toda a minha atenção, enquanto Holmes, que detestava qualquer espécie de sociedade com toda a sua alma boêmia, continuava nos nossos alojamentos da Baker Street, enterrado no meio dos seus velhos livros, alternando a leitura e o confronto dos anais do crime no mundo inteiro com as experiências químicas. Continuava, como sempre, fortemente atraído pelo estudo da criminologia, e ocupava suas imensas faculdades e poderes extraordinários de observação em seguir as indicações e desvendar os mistérios que tinham sido abandonados pela polícia como casos indecifráveis. De vez em quando ouvia-o contar alguns dos seus feitos — de como fora chamado a Odessa no caso do assassinato de Trepov; dos esclarecimentos que obtivera a respeito da esquisita tragédia dos irmãos Atkinson em Trincomalee e, finalmente, a respeito da missão delicada e coroada de tanto êxito que desempenhara em favor da família real holandesa. Mas, além desses sinais da sua atividade, dor quais apenas participei como qualquer outro leitor de jornais, pouco mais soube do meu antigo amigo e companheiro.

    Uma noite — 20 de março de 1888 —, regressava eu de uma visita a um doente (pois voltara a exercer a minha profissão), quando fui obrigado a passar pela Baker Street. Ao encarar a inolvidável porta, a qual para mim permanece associada ao meu tempo de namorado e aos tristes incidentes de Um estudo em vermelho, deu-me muita vontade de ver Holmes outra vez e saber no que ocupava suas energias extraordinárias. O apartamento estava iluminado, e, olhando para cima, vi sua silhueta na cortina; andava para lá e para cá, rápida e preocupadamente, com a cabeça baixa e as mãos atrás das costas. Para mim, que conhecia todos os seus gestos e hábitos, aquela atitude contava a sua própria história. Estava de novo trabalhando. Tinha se desembaraçado dos papéis e substâncias químicas e estava firmemente no encalço de algum novo problema. Toquei a campainha, e levaram-me para o aposento que antigamente eu também havia ocupado.

    Recebeu-me de um modo efusivo. Isso era raro, mas penso que ele estava satisfeito ao ver-me. Pouco falou, mas com um olhar amigável apontou-me a poltrona, estendeu-me sua cigarreira e indicou o bar no canto. Depois postou-se diante da lareira e olhou-me com seu jeito singular e introspectivo.



— O casamento foi bom para você — disse ele. — Creio, Watson, que você pesa mais três quilos e meio desde a última vez que o vi.

— Três — respondi eu.

— Deveras? Julguei que fosse um pouco mais. Um pouco mais, Watson. Bem, vejo que está trabalhando de novo, mas não me tinha dito que pretendia voltar à sua profissão.

— Como é que sabe então?

— Vejo que sim, deduzo-o. Como é que sei que tem apanhado muita chuva nestes últimos dias e que tem uma empregada bronca e descuidada?

— Caro Holmes — disse eu —, isso é demais. Você certamente teria sido queimado vivo se tivesse vivido uns século atrás. É verdade que fui passear no campo na quinta-feira e voltei molhadíssimo, mas como já mudei de roupa não sei como é que descobriu. Quanto à empregada, é incorrigível, e minha mulher já a despediu, mas mesmo assim não sei como o adivinhou.

    Ele riu satisfeito e esfregou as mãos nervosamente.

— É a coisa mais simples — retorquiu. — Vejo que do lado de dentro do seu sapato esquerdo, justamente onde a luz do fogo incide, o couro está marcado com seis cortes paralelos. É claro que os cortes foram feitos por alguém que descuidadamente raspou a beira das solas dos sapatos para remover a lama nelas grudada. A partir daí compreenderá minhas deduções duplas, de que esteve fora com mau tempo e que tem uma espécie de empregada particularmente incompetente para limpar os sapatos. Quanto à sua profissão, se um cavalheiro entrar nos meus aposentos cheirando a iodofórmio, com uma mancha de nitrato de prata na ponta do polegar direito e uma saliência na cartola que mostra onde escondeu seu estetoscópio, devo ser muito obtuso se não o reconheço como membro ativo da profissão médica.

    Não pude deixar de rir da facilidade com que ele explicou seu processo de dedução.

— Quando ouço suas razões — disse eu —, as coisas parecem tornar-se tão simples que facilmente penso conseguir o mesmo, embora fique cada vez mais confuso, até que você explique seu processo... Todavia, creio que minha vista é tão boa quanto a sua.

— Perfeitamente — respondeu ele acendendo um cigarro e atirando-se numa poltrona. — Você vê, mas não observa. A distinção é clara. Por exemplo, você tem visto muitas vezes os degraus que sobem do bali até este aposento.

— Freqüentemente.

— Quantas vezes?

— Bem, algumas centenas de vezes.

— Então quantos são?

— Quantos? Não sei.

— Muito bem! Você os viu. Mas não os observou. Aí está a minha vantagem. Eu sei que há dez degraus, porque vi e observei. Olhe, desde que você está interessado nesses pequenos problemas e que tem tido a bondade de tomar nota das minhas experiências, talvez sinta interesse em ler isto. — Lançou-me uma folha de papel grosso, cor-de-rosa, que estava em cima da mesa.

— Veio pelo último correio — explicou ele. — Leia-o em voz alta.

    O bilhete não trazia data, nem endereço ou assinatura. Dizia:

     "Irá visitá-lo hoje à noite, às quinze para as oito, um cavalheiro que deseja consultá-lo sobre de grande importância. Os serviços que prestou a uma das casas reais européias demonstram que o senhor é de toda a confiança em assuntos importantes, o que não é exagero. Essa informação a seu respeito recebemos de toda parte. Esteja, portanto, no seu apartamento a essa hora, e não se sinta ofendido se a pessoa que o visitar usar máscara".

— Isto de fato é um mistério — disse eu. — De que pensa você que se trata?

— Ainda não sei. É arriscado especular antes de ter dados na mão... Inconscientemente começa-se a torcer os fatos para acomodá-los às teorias, em vez de fazer as teorias coincidirem com os fatos. Vamos à nota. Que deduz dela?

    Examinei cuidadosamente a caligrafia e o papel.

— O homem que a escreveu é certamente rico — comecei, procurando imitar o processo que usava o meu amigo. — Não se pode comprar tal papel por menos de dois xelins e seis pence o pacote. É reforçado de um modo extraordinário.

— Extraordinário é a palavra. Não é sequer papel inglês. Coloque-o contra a luz.

    Assim fiz, e vi um e maiúsculo com um g minúsculo, um p e um g grandes com um tpequeno, tecidos na contextura do papel.



— O que deduz disto? — perguntou Holmes.

— O nome do fabricante, sem dúvida; ou melhor, o seu monograma.

— Nada disso. O g maiúsculo com ot minúsculo significam "Gesellschaft"', que é "companhia" em alemão. É uma contração como nossa habitual Cia.; p decerto quer dizer "Papier". Quanto ao Eg, vamos consultar o nosso dicionário geográfico.

    E tirou da prateleira um pesado volume castanho.

— Cá estamos, Egiow, Eglonitz, Egria. É um distrito da Boêmia, onde se fala o alemão, não muito distante de Karlsbad. É notável por ser o lugar da morte de Wallenstein e pelas suas numerosas fábricas de vidro e de papel. Então, rapaz, o que você pensa disso? — Brilharam-lhe os olhos, e ele expeliu uma baforada triunfal do seu cigarro.

— O papel foi fabricado na Boêmia — disse-lhe eu.

— Precisamente. E o homem que escreveu o bilhete é um alemão. Repare bem na construção esquisita da sentença: "Essa informação a seu respeito recebemos de toda parte". Um francês ou russo não escreveria assim. Só um alemão é que aplicaria o verbo dessa forma. Falta agora descobrir o que deseja esse alemão que escreveu em papel da Boêmia, e por que prefere usar máscara a mostrar o rosto. E ele vem aí, se não me engano, para resolver todas as nossas dúvidas.

    Enquanto falava, ouviram-se o som agudo de patas de cavalo e o arrastar de rodas contra a calçada, seguido por um rápido toque de campainha.

    Holmes assobiou.

— Dois, pelo som — disse ele, olhando pela janela. — Aqui está um carrinho bonito e um par de belos cavalinhos. Cento e cinqüenta guinéus cada. Nesse caso há dinheiro, Watson, mesmo que não haja mais nada.

— Penso que devo ir embora, Holmes.

— Nada disso, doutor. Fique onde está. Sinto a falta do meu Boswell, e o caso promete ser interessante... Seria pena perdê-lo.

— Mas o seu cliente...

— Não se incomode, posso precisar de auxílio, e talvez ele precise também. Lá vem ele. Sente-se naquela poltrona, doutor, e dê-nos sua melhor atenção.

    Um passo pesado e vagaroso, que se ouvia subir a escada, parou imediatamente em frente à porta. Depois, uma pancada forte e autoritária.

— Entre! — disse Holmes.

    Logo surgiu um homem que não tinha menos de dois metros de altura, com peito e músculos de um Hércules. Vestia-se de um modo tão luxuoso que, na Inglaterra, seria considerado de mau gosto. As mangas e a frente dupla do casaco eram ornamentadas com largas faixas de astracã, enquanto a capa azul-escura, que estava sobre os ombros, era forrada de seda cor de fogo e presa ao pescoço por um broche constituído por um berilo flamejante. As botas chegavam até metade das pernas e, enfeitadas em cima com rica pele castanha, completavam a impressão de uma opulência bárbara, sugerida pela aparência total do visitante. Trazia na mão um chapéu de aba larga, ao passo que na parte superior do rosto usava uma máscara preta, a qual, aparentemente, colocara naquele momento, porque a mão ainda a segurava quando entrou. A julgar pela parte inferior do rosto, parecia um homem de caráter forte, com lábios grossos e queixo longo e reto, que demonstrava resolução e até obstinação.



— O senhor recebeu o meu bilhete? — perguntou em voz gutural e ríspida, com sotaque fortemente alemão. — Eu lhe disse que viria. — Olhou para nós dois, como que hesitando a qual devia dirigir-se.

— Tenha a bondade de se sentar — disse Holmes. — Este é meu amigo e colega, o dr. Watson, que às vezes me ajuda bondosamente. Com quem tenho a honra de falar?

— Pode chamar-me conde von Kramm, um nobre da Boêmia. Presumo que este cavalheiro seja homem honrado e discreto, em quem possa confiar num caso de extrema importância. Senão, preferiria falar-lhe a sós. 

    Levantei-me para sair, porém Holmes pegou-me pela mão e empurrou-me de novo para a poltrona.

— É para os dois, ou para nenhum — disse ele. — Pode dizer perante este senhor tudo quanto tem a dizer a mim.

    O conde encolheu seus largos ombros.

— Então preciso começar — disse ele — por lhes impor a ambos o maior silêncio a este respeito durante dois anos; depois o assunto já não terá importância. Atualmente, não é exagero dizer que é tão importante que pode influenciar a história da Europa inteira.

— Prometo — disse Holmes.

— Eu também.

— Desculpem-me esta máscara — continuou o nosso estranho visitante. — A augusta pessoa que me emprega deseja que seu agente não seja conhecido pelo senhor, e tenho de confessar que o título que há pouco usei não é bem meu.

— Isso eu já sabia — disse Holmes.

— As circunstâncias são de grande delicadeza, e é preciso toda a precaução para abafar o que poderia tornar-se um grande escândalo e comprometer seriamente uma das famílias reinantes da Europa. Para falar claramente, o assunto implica a grande casa de Ormstein, reis hereditários da Boêmia.

— Já o percebi — murmurou Holmes, enfiando-se mais para dentro da poltrona e fechando os olhos.

    Nosso visitante olhou com surpresa para aquela figura de homem tão lânguido e indolente, que lhe tinha sido descrito, com toda a certeza, como sendo a pessoa mais arrasadora e incisiva e o agente mais enérgico da Europa. Holmes abriu os olhos com vagar e olhou impacientemente o seu gigantesco cliente.

— Se Vossa Majestade condescendesse em dizer qual é o seu problema — disse ele —, poderia ajudá-lo melhor.

    O homem pulou da cadeira e andou de um lado para outro na sala, numa agitação descontrolada. Então, com um movimento de desespero, arrancou a máscara do rosto e atirou-a no chão.


— Tem razão — exclamou. — Sou o rei. Por que devo eu procurar esconder-me?

— Por quê, realmente? — murmurou Holmes. — Vossa Majestade não tinha ainda falado e eu já sabia que a pessoa com quem conversava era Wilhelm Gottsreich Sigismond von Ormstein, grão-duque de Casell-Falstein e rei hereditário da Boêmia.

— Mas o senhor deve compreender — disse o nosso estranho visitante, sentando-se outra vez e passando a mão pela fronte alta e branca —, o senhor deve compreender muito bem que não estou habituado a tratar de negócios pessoalmente. Todavia, o assunto é tão delicado que não pude confiá-lo a um agente para não me colocar em seu poder. Vim incógnito de Praga especialmente para consultá-lo.

— Então tenha a bondade de me consultar — disse Holmes, fechando de novo os olhos.

— Os fatos resumidos são estes: há uns cinco anos passados, durante uma longa estada em Varsóvia, travei relações com a conhecida aventureira Irene Adler. O nome com certeza é-lhe muito familiar.

— Tenha a bondade de procurar o nome dela no meu fichário, doutor — murmurou Holmes, sem abrir os olhos.

    Durante muitos anos ele adotara o sistema de arquivar todos os assuntos relativos aos homens e às coisas, e assim era difícil que se mencionasse um caso ou uma pessoa sobre a qual ele não pudesse dar alguma informação. Encontrei a biografia de Irene entre a de um rabino hebreu e a de um comandante de esquadra que havia escrito uma monografia sobre os peixes dos mares profundos.

— Deixe-me ver — disse Holmes. — Hum! Nasceu em Nova Jersey no ano de 1858. Contralto... hum! La Scala, hum! Prima-dona imperial, Ópera de Varsóvia... Sim! Retirou-se do palco... ah! Mora em Londres, é isso mesmo! Percebo que Vossa Majestade se comprometeu com essa jovem, escreveu-lhe algumas cartas e agora deseja reavê-las, não é verdade?

— Exatamente! Mas como...

— Houve casamento clandestino?

— Não.

— Nenhum papel legal ou certificado?

— Nenhum.

— Então não posso compreender Vossa Majestade. Se essa jovem quisesse apresentar as cartas num ato de extorsão ou com qualquer outro propósito, como é que poderia provar a autenticidade das mesmas?

— Há a letra.

— Basta, basta! Falsificação.

— Meu papel de cartas particular.

— Roubado.

— E meu selo privado?

— Imitação.

— E minha fotografia...

— Comprada.

— Estamos os dois na fotografia.

— Oh! mau! Isso é grave. Realmente Vossa Majestade cometeu uma grande imprudência.

— Eu estava doido... doido.

— Vossa Majestade comprometeu-se seriamente.

— Eu era apenas o herdeiro naquela época. Era jovem, mas agora tenho trinta anos.

— Precisa recuperar as cartas.

— Já tentamos, sem êxito.

— Vossa Majestade precisa pagar. Devem ser compradas.

— Ela não as vende.

— Roubadas, então.

— Experimentou-se isso cinco vezes. Em duas ocasiões os ladrões foram pagos por mim e reviraram-lhe a casa. Uma vez desviamos a bagagem dela quando viajava. Duas vezes lhe preparamos armadilhas. Mas tudo sem resultado.

— E nem sinal!...

— Nada, absolutamente nada.

    Holmes riu-se:

— É realmente um problema engraçado — disse ele.

— Mas muito sério para mim — replicou o rei em tom de reprovação.

— Muito mesmo. Mas o que é que ela tenciona fazer com a fotografia?

— Arruinar-me.

— Mas como?

— Estou para me casar.

— Já ouvi isso.

— Com Clotilde Lothman von Saxe-Meningen, segunda filha do rei da Escandinávia. Talvez o senhor conheça os princípios severos da família da minha noiva. Ela própria é a delicadeza personificada. Qualquer sombra de dúvida a meu respeito acabaria com tudo.

— E Irene Adler?

— Ameaça mandar-lhe a fotografia. E o fará. Sei que o fará. O senhor não a conhece; tem uma alma de aço. O rosto da mais bela das mulheres e a mentalidade dos homens mais resolutos. Para que eu não me case com outra mulher, não há nada que ela não faça, nada.

— Vossa Majestade tem certeza de que ela ainda não mandou a fotografia?

— Tenho certeza.

— Por quê?

— Porque ela afirmou que a mandaria no dia em que o noivado fosse proclamado publicamente. Isso será na próxima segunda-feira.

— Oh, então temos três dias ainda — disse Holmes, bocejando. — É bom, porque tenho um ou dois assuntos de importância para tratar presentemente. Com certeza Vossa Majestade ficará em Londres por enquanto...

— Certamente. Estarei no Langham Hotel, sob o nome de conde von Kramm.

— Então lhe escreverei para informá-lo do desenrolar do caso.

— Faça o favor. Ficarei à espera ansiosamente.

— E quanto às despesas?

— O senhor tem carta branca.

— Inteiramente?

— Digo-lhe que daria uma das províncias do meu reino para reaver aquela fotografia.

— E para as despesas de momento?

    O rei tirou uma bolsa de camurça de sob a capa e atirou-a em cima da mesa.

— Aí estão trezentas libras em ouro e setecentas libras em notas — disse ele.

    Holmes assinou um recibo numa folha de papel da sua caderneta de notas e entregou-a ao rei.

— E o endereço de mademoiselle? — perguntou ele.

— Vila Briony, Serpentine Avenue, St. John's Wood.

    Holmes tomou nota.

— Mais uma pergunta — disse ele. — Era posada, a sua fotografia?

— Era.

 — Então, boa noite, Majestade. Espero que em breve tenhamos boas notícias para lhe dar. E boa noite, Watson — acrescentou, enquanto as rodas do carro rolavam rua abaixo. — Faça o favor de vir aqui amanhã às três horas da tarde, pois gostaria de conversar com você sobre este assunto.


    Precisamente às três horas do dia seguinte, estava eu na Baker Street, mas Holmes ainda não tinha voltado. A proprietária informou-me que ele saíra logo depois das oito horas. Sentei-me ao lado do fogo com a intenção de esperá-lo pelo tempo que fosse necessário. Tinha profundo interesse pelo caso, porque, embora isento das circunstâncias desagradáveis e estranhas ligadas aos dois crimes que já mencionei, a natureza do assunto e a posição elevada do seu cliente proporcionavam ao caso uma característica muito especial.



Além de tudo, a forma acertada como meu amigo tratava o assunto fazia com que eu tivesse prazer em estudar seu sistema e seguir os métodos rápidos e sutis com que desenredava os mais intrincados mistérios. Tão habituado estava eu ao seu invariável sucesso, que a mera possibilidade de ele falhar nunca me passou pela cabeça. 

    Eram quase dezesseis horas quando um empregado de aspecto beberrão, maltrapilho, barbado, com o rosto inchado e as roupas imundas, entrou no apartamento. Embora habituado ao poder maravilhoso que meu amigo tinha de se disfarçar, tive de olhar três vezes antes de ter a certeza de que era ele; com um aceno de cabeça, entrou no quarto, donde emergiu cinco minutos depois, vestido respeitavelmente com o habitual terno de casimira. Enfiando as mãos nos bolsos, estendeu as pernas diante do fogo e desatou a rir por alguns minutos.

— Bem, realmente — exclamou, e depois engasgou-se; riu-se outra vez, até que foi obrigado a encostar-se para trás na cadeira, exausto de tanto rir.

— O que é isso?

— É muito engraçado. Afianço-lhe que nunca poderá adivinhar como passei esta manhã, ou o que acabei de fazer.

— Não posso imaginar, mas suponho que andou espreitando os hábitos e talvez a casa da srta. Irene Adler. 

— Certo, mas o resultado foi interessante. Vou lhe contar. Saí de casa pouco depois das oito, hoje de manhã, vestido de cocheiro, à procura de serviço. Há muita simpatia e maçonaria entre os cocheiros. Fingindo ser um deles pode-se saber tudo o que é necessário saber. Encontrei logo a Vila Briony. É uma casinha bijou, com uma horta atrás, mas a frente dá para a rua. Tem fechadura moderna na porta. Ao lado direito fica a vasta sala de estar, bem mobiliada, com janelas grandes que chegam quase ao chão e que qualquer criança poderia abrir com facilidade. Nos fundos não há nada de extraordinário, a não ser que, de cima da cocheira, pode-se chegar à janela do corredor. Dei uma volta ao redor da casa e examinei-a bem, mas sem notar mais nada de interessante. Desci vagarosamente a rua, e reparei, enquanto esperava, que há uma fila de cocheiras numa viela para onde dá um dos muros do jardim. Ajudei os cocheiros a escovar e limpar os cavalos, e recebi de gratificação dois pence, um copo de cerveja, duas pitadas de tabaco e todas as informações de que precisava a respeito da srta. Adler, para não falar de coisas a respeito de meia dúzia de pessoas das vizinhanças que não me interessavam mas cujas biografias fui obrigado a ouvir.

— E com referência a Irene Adler? — perguntei eu.

— Oh! Ela já virou a cabeça de todos os homens que andam por aí. É a pessoa mais refinada deste planeta, segundo dizem todos os empregados das cocheiras da Serpentine. Vive sossegadamente, cantando em concertos, sai a passeio de carro todos os dias às dezessete horas e volta às dezenove em ponto para o jantar. Tem só um visitante masculino, mas suas visitas são freqüentes. Ele é moreno, simpático e arrojado; vai visitá-la uma ou duas vezes por dia. Chama-se Godfrey Norton, e é advogado. Veja como é conveniente ter cocheiros por confidentes. Eles o levaram dúzias de vezes das cocheiras da Serpentine para a casa dele, e sabiam tudo a seu respeito. Depois de ter ouvido o que tinham para contar, comecei a passear outra vez perto da Vila Briony e a maquinar meu plano de campanha. 

    "Esse Godfrey Norton é, evidentemente, um fator importante no caso. É advogado. Isso é coisa séria. Que relações haverá entre eles? Será ela uma cliente, amiga ou apenas companheira? Se for cliente, deve, muito provavelmente, ter-lhe entregue a fotografia para guardar, mas só nesse caso. Conforme as circunstâncias, eu continuaria o meu trabalho na Vila Briony ou transferiria minha atenção para os alojamentos do cavalheiro. Sinto que o estou cansando com estes detalhes, mas é um ponto delicado, e tenho de expor-lhe minhas dificuldades para que você possa compreender a situação.

— Estou prestando atenção — respondi-lhe.

— Ainda estava cogitando nisso tudo, quando chegou um carro descoberto à residência, e dele saltou um jovem. Era atraente, moreno, nariz aquilino e usava bigode, evidentemente o homem de quem me haviam falado. Parecia estar com muita pressa, pois gritou para o cocheiro que esperasse e passou rapidamente pela empregada que lhe abrira a porta, com ar de pessoa familiarizada na casa.

    "Permaneceu lá dentro meia hora, mais ou menos, e pude vê-lo através da janela da sala, andando, gesticulando e falando com grande excitação. Quanto a Irene, não a vi. Daí a pouco ele saiu, parecendo ainda mais apressado, e quando saltou para dentro do carro tirou do bolso um relógio de ouro e olhou-o com atenção. 

— Corra como um raio — gritou —, e passe primeiro pela joalheria Gross & Hankey na Regent Street, e depois pela Igreja de Santa Mônica, na Edgware Road. Meia libra se o fizer em vinte minutos.

    "Lá se foram, e estava eu pensando se não faria bem em segui-los quando começou a subir a viela uma carruagem vistosa, cujo cocheiro ainda não havia abotoado o paletó. Tinha a gravata torta, e as correias dos animais estavam mal colocadas e não afiveladas. Mal o carro parou, Irene correu da porta da casa para dentro dele. Só pude vê-la um instante, mas é linda, a espécie de mulher por quem um homem dá até a vida.

"— Para a Igreja de Santa Mônica, John — disse ela —, e meia libra se chegar lá em vinte minutos.

    "Aquilo era bom demais, e eu não podia perdê-la, Watson; estava indeciso se devia segui-la colocando-me na traseira do mesmo veículo, quando passou outro carro. O cocheiro olhou-me duas vezes antes de me aceitar como passageiro, tão feio e maltrapilho eu estava, mas antes que me pudesse recusar, pulei para dentro e gritei: — Para a Igreja de Santa Mônica, e meia libra se chegar lá em vinte minutos. — Faltavam vinte e cinco minutos para o meio-dia, e era fácil perceber o que ia acontecer.

    "Meu cocheiro simplesmente voou, e não me lembro de jamais ter viajado tão depressa, mas mesmo assim os outros já tinham chegado; os cavalos dos dois carros estavam cobertos de suor em frente à porta da igreja. Não havia outras pessoas além daquelas que eu seguira e do vigário, vestido com sua sobrepeliz de eclesiástico e que parecia discutir com eles. Estavam os três juntos em frente ao altar; fui andando vagarosamente pela nave como podia fazer qualquer vadio que tivesse entrado por acaso. De repente, para surpresa minha, os três se viraram para mim e Godfrey Norton veio correndo na minha direção.

"— Graças a Deus! — exclamou ele. — Você servirá. Venha! Venha!

"— Para quê? — perguntei eu.

"— Venha, homem, venha, por três minutos só, do contrário não será legal.



 Fui meio empurrado até o altar e, antes de saber o que se passava, percebi que murmurava as frases que me eram proferidas aos ouvidos e prometia coisas que não compreendia. Assistia, praticamente, ao casamento de Irene Adler, solteira, e de Godfrey Norton, solteiro. Acabou-se tudo num instante, e de um lado estava o jovem, agradecendo-me, e de outro a jovem, enquanto o vigário sorria à minha frente. Foi a posição mais absurda em que jamais me achei, e foi a recordação disso tudo o que me fez rir agora. Parece-me que havia qualquer irregularidade quanto à licença de casamento, e que o clérigo se recusava a casá-los caso não houvesse testemunha. Minha chegada naquele momento salvou a desagradável situação de o noivo ter de sair para a rua à procura de uma testemunha. O rapaz deu-me uma libra, que pretendo usar presa à minha corrente de relógio como lembrança do fato."

— Foi uma reviravolta inesperada nos fatos — disse eu. — Então, e depois?


— Bem, vi que meus planos estavam seriamente ameaçados. Parecia que o casal iria embora imediatamente, e portanto eu precisava agir pronta e energicamente. No entanto, à porta da igreja separaram-se, indo ele para o foro e ela regressando para casa. "Vou passear pelo parque como sempre às dezessete horas", disse-lhe ela quando ia saindo. Não ouvi mais nada. Foram cada um para o seu lado, e eu vim preparar os meus planos.

— Quais são eles?

— Um pouco de carne fria e um copo de cerveja em primeiro lugar — disse ele, tocando a campainha. — Estive ocupado demais para me lembrar de comer, e é possível que esteja ainda mais ocupado à tarde. A propósito, doutor, vou precisar da sua cooperação.

— Terei muito prazer em dá-la.

— Não se importa de contrariar as leis?

— Absolutamente nada.

— Nem de se arriscar a ser preso?

— Não, num caso justo.

— O caso é excelente!

— Então estou ao seu dispor.

— Tinha a certeza de que poderia contar com você.

— Mas o que quer que eu faça?

— Depois que a sra. Turner trouxer a bandeja, explico-lhe tudo. Agora — disse ele, enquanto se virava para comer a comida simples que a hospedeira havia trazido —, preciso falar enquanto como, porque temos pouco tempo. São quase dezessete horas, e dentro de duas horas devemos estar em ação. A srta. Irene, isto é, sra. Norton, volta sempre do seu passeio às dezenove horas; temos de estar na Vila Briony à espera dela.

— E depois?

— Deixe isso por minha conta. Já resolvi o que se deve fazer. Há somente um ponto em que preciso insistir, Você não deve interferir, seja qual for o resultado. Compreende?

— Tenho de ficar neutro?

— E não fazer nada, absolutamente nada. Talvez surjam alguns aborrecimentos, mas não se meta; hão de acabar por me levar para dentro de casa. Quatro ou cinco minutos depois abrirão a janela da sala, e você deve colocar-se bem embaixo dela.

— Está bem.

— Fique olhando para mim, porque poderá ver-me lá de fora.

— Muito bem!

— Quando eu levantar a mão, assim, você atirará para dentro aquilo que vou lhe dar, e ao mesmo tempo dará o alarme de "fogo". Está entendido?

— Perfeitamente.

— Não é nada de perigoso — prosseguiu ele, tirando do bolso um objeto em feitio de charuto —, é simplesmente um rojão comum que os encanadores usam, selado em cada ponta para torná-lo automático. Seu trabalho é apenas esse. Quando gritar "fogo", várias pessoas repetirão o grito. Então vá até o fim da rua, onde irei ter com você dentro de dez minutos. Posso estar certo de que esclareci bem tudo?

— Permaneço neutro e aproximo-me da janela para olhar para você e, ao ver o tal sinal, lanço janela adentro este objeto, dou alarme de incêndio e vou esperá-lo na esquina da rua.

— Justamente.

— Então pode contar comigo.

— Excelente. Creio que já está na hora de me preparar para a parte que me cabe.



Desapareceu no quarto, e poucos minutos depois voltou vestido como um amável sacerdote. O chapéu preto de aba larga, as amplas calças, a gravata branca, o sorriso simpático e uma aparência geral de curiosidade benevolente e compenetrada eram tais que só o sr. John Hare os poderia ter igualado. Não era apenas que Holmes tivesse trocado de roupa; sua expressão, seu modo, sua própria alma pareciam transformar-se em cada novo papel que representava. O palco perdeu um excelente ator, assim como a ciência perdeu um ativo investigador quando ele se tornou especialista em criminologia.

  Eram dezoito horas e trinta quando partimos da Baker Street. Faltavam ainda dez minutos para a hora marcada quando chegamos à Serpentine Avenue. Já era a hora do lusco-fusco, e as lâmpadas das ruas começavam a ser acesas enquanto passávamos em frente da Vila Briony, à espera da sua moradora. Era uma casa igual à que eu tinha imaginado pela descrição sucinta que Holmes me havia feito, mas o local não era tão isolado como eu esperava. Pelo contrário, para uma rua pequena com vizinhança sossegada, achei-a muito animada. Havia um grupo de homens pobremente vestidos, fumando e rindo numa esquina, um amolador de facas com sua maquineta, dois guardas namorando uma empregada e diversos jovens bem-vestidos que caminhavam descuidadamente, de charuto na boca.

— Como vê — disse Holmes, enquanto passávamos em frente à casa —, este casamento simplifica um pouco o caso. Agora a fotografia torna-se uma arma de dois gumes. Talvez Irene seja contra a divulgação da fotografia, pois se for vista por Godfrey Norton, o caso é igual ao do nosso cliente, isto é, é como se fosse vista pela princesa. Agora a questão é esta: onde encontraremos a fotografia?

— É mesmo, onde a encontraremos?

— Ela não deve trazê-la consigo, porque é de um tamanho grande. Grande demais para ser escondida na roupa de uma mulher. Ela também sabe que o rei é capaz de lhe armar uma emboscada e mandar examinar tudo o que leva. De fato, já fizeram isso por duas vezes. Portanto, sabemos que não a traz consigo.

— Mas, então, onde a deixa?

— Entregue ao banqueiro ou ao advogado. Há essa dupla possibilidade. Mas não acredito nela. As mulheres são muito dissimuladas e têm uma forma particular de guardar segredos. Por que haveria ela de entregar a fotografia a outra pessoa, se se sente competente para guardá-la? Além disso, não se esqueça de que ela pretende utilizar a fotografia daqui a poucos dias. Deve estar onde possa ser apanhada facilmente. Deve estar em sua própria casa.

— Mas já tentaram roubá-la duas vezes.

— Que importa! Não souberam procurar.

— Mas como você vai procurá-la?

— Eu não vou.

— Então o que pretende fazer?

— Vou fazer com que ela me mostre onde está.

— Ela se recusaria a isso, com certeza.

— Não será possível. Mas, escute, ouço o rodar do carro dela. Agora cumpra as minhas ordens.

    Enquanto falava, a luz das lâmpadas do carro surgiu à curva da avenida. Era um carrinho bonito o que parou diante da Vila Briony. Ao parar, um dos ociosos da esquina avançou para abrir a porta, à espera de receber uma moeda, mas foi empurrado por outro dos vagabundos que correra no mesmo instante, com a mesma intenção. Houve uma luta feroz, engrossada pelos dois guardas, que apoiaram um dos brigões, e pelo amolador, que resolveu apoiar o outro. Houve uma cacetada, e num instante a dama que descera do carro estava no centro de uma roda de homens que lutavam uns contra os outros a socos e cacetadas. Holmes correu em direção à jovem para protegê-la, mas justamente no instante em que chegou perto dela deu um grito e caiu ao chão, o sangue a escorrer-lhe pela face. A queda foi devida a terem os guardas corrido numa direção e os contendores na outra, enquanto um número de pessoas bem-vestidas que tinham presenciado a luta sem se intrometer se aproximaram para ajudar a senhora e o homem ferido. Irene Adler, como ainda a chamarei, tinha subido correndo os degraus; porém, uma vez lá em cima, com sua figura esbelta em silhueta e contra as luzes do hall, virando-se para a rua, perguntou:



— Está muito ferido o pobre homem?


— Está morto — gritaram vários dos presentes.

— Não, não, ainda está vivo — bradou outro —, mas morrerá antes que possa chegar a um hospital.

— É um homem corajoso — disse uma mulher. — Teriam tirado o relógio e a bolsa da senhora se não fosse ele. Foi um bando de malvados. Ah! Já está respirando?

— Mas ele não pode ficar deitado na rua. Podemos levá-lo para dentro, senhora?

— Certamente. Tragam-no para a sala de estar, onde há um sofá confortável. Por aqui, façam o favor.

    Vagarosa e solenemente, levaram-no para dentro da Vila Briony e deitaram-no na sala, num sofá, enquanto eu observava os acontecimentos, do meu lugar perto da janela.

    Acenderam-se as lâmpadas, mas as cortinas continuavam abertas, e assim pude ver Holmes deitado no sofá. Não sei se ele teve vergonha da farsa, mas sei que nunca me senti tão envergonhado de mim próprio como quando vi aquela criatura, contra quem conspirávamos, ajudar o homem ferido com tanta graça e bondade. Todavia, era uma traição das piores abandonar Holmes agora. Portanto, endureci meu coração e peguei o foguete que trazia debaixo da capa. Em todo caso, pensei, não queremos prejudicá-la, estamos apenas fazendo o possível para que não prejudique outra pessoa.

    Holmes erguera-se no sofá, e vi-o fazer um sinal como se quisesse mais ar. Uma empregada atravessou a sala correndo e abriu a janela. No mesmo instante vi-o levantar a mão e, a este sinal, atirei meu foguete para dentro da sala, com o grito de "fogo!" Mal a palavra saiu dos meus lábios, a multidão de espectadores, os elegantes e os malvestidos — cavalheiros, cocheiros e empregadas — uniram suas vozes num só grito: "Fogo!" Rolos de fumaça ondulavam pela sala e para fora da janela. Vi num relance vultos alarmados correndo, e um momento depois ouvi a voz de Holmes dizendo que era um alarme falso. Esgueirando-me através da multidão que gritava, fui até a esquina da rua, e dez minutos depois alegrei-me ao sentir Holmes pegar no meu braço. Estava aliviado por poder abandonar aquela cena barulhenta. Ele andou depressa e em silêncio por alguns minutos, até que entramos numa das ruas calmas em direção à Edgware Road.

— Fez tudo muito bem feito, doutor — disse-me ele. — Não podia ter sido melhor. Está tudo bem.

— Tem a fotografia?

— Já sei onde está.

— E como a descobriu?

— Ela a mostrou para mim, como eu lhe disse que havia de fazer.

— Não compreendo.

— Não quero fazer mistério — disse ele, rindo. — O caso foi muito simples. Com certeza percebeu que todos os que lá estavam eram cúmplices. Foram todos contratados para a ocasião.

— Calculei isso.

— Então, quando o barulho começou, eu tinha um pouco de tinta vermelha na mão. Corri para a frente e caí, bati no rosto com a mão e transformei-me num pobre ferido. É um truque velho.

— Isso também percebi.

— Levaram-me para dentro. Ela não podia deixar de permitir que o fizessem, não é verdade? E fui para aquela sala onde suspeitei que estava a fotografia. Deitaram-me no sofá, eu pedi ar, abriram a janela, e você teve a sua oportunidade.

— Como é que isso o ajudou?

— Era muito importante. Quando uma mulher pensa que a casa está pegando fogo, instintivamente corre para salvar o objeto mais precioso que possui. É um impulso perfeitamente irresistível, e eu tenho me aproveitado desse fato mais de uma vez. No caso do escândalo de Darlington, foi de grande utilidade, e também me serviu no problema do Castelo de Arnsworth. A mulher casada corre em auxílio do filhinho, a solteira pega a caixa de jóias. Para mim, nossa cliente de hoje não tinha nada que estimasse mais do que aquilo que procuramos. Tentaria salvá-lo. O alarme foi muito bem-feito. A fumaça e os gritos foram suficientes para enervar um cérebro de aço. Ela reagiu magnificamente. A fotografia está num armariozinho atrás de um painel, por cima do cordão da campainha, à direita. Ela chegou lá num instante, e percebi que ia retirá-la. Mas quando gritei que era alarme falso, ela a repôs no armário, olhou para o rojão queimado, saiu da sala e não a vi mais. Levantei-me e, pedindo desculpas, deixei a casa, hesitando ainda sobre se devia procurar obter logo a fotografia, mas o cocheiro tinha entrado e, como me olhava fixamente, pareceu-me melhor esperar. A precipitação poderia arruinar tudo.

— E agora? — perguntei eu.

— Nossa busca está praticamente terminada. Farei uma visita à senhora, na companhia do rei e na sua, se quiser nos acompanhar. Introduzir-nos-ão na sala de estar para aguardarmos a senhora, mas é possível que quando ela entrar não nos encontre, nem à fotografia. Será uma satisfação para Sua Majestade recuperá-la por suas próprias mãos.

— A que horas fará essa visita?

— Às oito da manhã. Ela ainda não terá levantado, e assim teremos o campo livre. Além disso, precisamos não perder tempo, porque este casamento pode modificar completamente a vida dela e os seus hábitos. Vou telegrafar ao rei sem demora.



Chegamos à Baker Street e paramos à porta. Ele procurava a chave no bolso quando alguém que passava disse:

— Boa noite, sr. Sherlock Holmes.

   Havia diversas pessoas na calçada no momento, mas o cumprimento parecia ter partido de um rapazinho vestido com uma capa, que passou apressadamente.

— Já ouvi aquela voz — disse Holmes, perscrutando a escuridão da rua. — Quem terá sido?

  Dormi na Baker Street naquela noite, e estávamos tomando o nosso café com torradas quando entrou apressadamente o rei da Boêmia.

— O senhor a apanhou realmente? — gritou ele, segurando os ombros de Holmes e olhando-o, aflito.

— Ainda não.

— Mas tem esperanças de apanhá-la?

— Tenho.

— Então vamos, estou impaciente por partir.

— Precisamos de um coche.

— Não, meu carro está à espera.

— Isso simplifica bastante o caso.

    Descemos e mais uma vez fomos à Vila Briony.

— Irene Adler está casada — disse Holmes.

— Quando se casou?

— Ontem.

— Mas com quem?

— Com um advogado inglês chamado Norton.

— Mas ela não o ama!

— Espero que sim.

— E por que espera o senhor que sim?

— Porque com isso pouparemos muitos temores no futuro a Vossa Majestade. Se a esposa ama o marido, não ama Vossa Majestade, e assim não há razão para interferir nos seus planos.

— Isso é verdade, todavia... Bem, gostaria que ela fosse da minha raça e posição. Que elegante rainha teria sido! — Calou-se, e o silêncio continuou até que paramos na Serpentine Avenue.

    A porta da Vila Briony estava aberta, e uma senhora idosa encontrava-se nos degraus. Fitou-nos quando descemos do carro e em voz sarcástica perguntou:

— Sr. Sherlock Holmes, creio?

— Sim, sou o sr. Holmes — respondeu o meu companheiro, olhando surpreso para ela.

— Deveras! Minha patroa disse que talvez o senhor viesse fazer-lhe uma visita. Ela foi embora com o marido hoje de manhã, no trem que parte às cinco e quinze de Charing Cross para o continente.

— O quê? A senhora quer dizer que ela deixou a Inglaterra? — exclamou Holmes, surpreso e desapontado.

— Sim, e nunca mais voltará.

— E os papéis? — perguntou o rei. — Então está tudo perdido.

— Vamos ver. — Holmes entrou bruscamente na casa e dirigiu-se à sala, seguido pelo rei e por mim. A mobília estava em desordem, as gavetas, abertas como se a senhora as tivesse esvaziado para fugir. Holmes foi direto à corda da campainha e abriu a portinhola do armário. Enfiando a mão dentro dele, de lá retirou um retrato e uma carta. O retrato era de Irene Adler em traje de soirée. A carta estava endereçada a "Sherlock Holmes, para ser entregue quando procurada por ele". Meu amigo abriu-a e nós a lemos juntos. Estava datada da meia-noite do dia anterior e dizia:

    "Meu caro Sherlock Holmes,

    O senhor realmente representou muito bem a farsa e enganou-me completamente; até depois do alarme de 'fogo' não tive a menor suspeita. Mas quando percebi que me havia traído, comecei a pensar. Eu tinha sido avisada contra o senhor há tempos, e sabia que, se o rei empregasse qualquer agente, haveria certamente de ser o senhor. Deram-me o seu endereço, e, apesar de tudo, o senhor fez com que eu me traísse e assim ficou sabendo o que queria descobrir. Mas depois de ter tido suspeitas, achei difícil pensar mal de um velho e bondoso clérigo. Mas, não se esqueça, também sou atriz experiente. Roupa masculina não é novidade para mim, e muitas vezes me aproveito da liberdade que ela me proporciona. Mandei John, o cocheiro, vigiá-lo, subi para o quarto, vesti a roupa de passeio, como a chamo, e desci logo depois que o senhor saiu. Bem, segui-o então até sua porta, para ter a certeza de que verdadeiramente eu era objeto de interesse para Sherlock Holmes. Aí, um tanto imprudentemente, saudei-o com um 'boa-noite' e fui até o foro ver meu marido. Ambos achamos que a melhor coisa a fazer seria a fuga, quando perseguidos por tão notável antagonista: por isso, encontrará o ninho vazio ao chegar aqui amanhã. Quanto à fotografia, seu cliente pode ficar descansado, sou amada e adorada por um homem muito melhor do que ele. O rei pode fazer o que quiser, que não será incomodado por uma pessoa que ele injuriou cruelmente. Guardarei a fotografia somente para minha segurança, e para conservar uma arma que sempre me há de salvaguardar de qualquer cilada que ele possa armar no futuro. Deixo outra fotografia — talvez ele a queira possuir —, e sou, caro Sherlock Holmes,

muito sinceramente,

Irene Norton, née Adler."

— Que mulher! Oh, que mulher! — gritou o rei da Boêmia, quando acabamos de ler. — Eu não lhes disse que era esperta e decidida? Pena que não seja da minha posição!

— Minha dedução disto tudo é que ela parece ser de um nível muito diferente do de Vossa Majestade — disse Holmes friamente. — Sinto não ter podido dar aos seus negócios uma conclusão mais satisfatória.

— Pelo contrário, meu caro senhor — disse o rei —, nada poderia ser melhor. Sei que a palavra dela é inviolável. A fotografia agora está tão segura como se tivesse sido atirada ao fogo.

— Regozijo-me que Vossa Majestade diga isso!

— Devo-lhe muito, senhor. Diga-me de que modo posso recompensá-lo. Este anel... — e tirou do dedo um anel de esmeraldas que colocou na palma da mão.

— Vossa Majestade tem uma coisa a que eu daria mais valor ainda — disse Holmes.

— O senhor a terá, diga o que é.

— Esta fotografia.

— A fotografia de Irene! — exclamou ele. — Com certeza, se a deseja.

— Agradeço a Vossa Majestade. Não há nada mais a dizer sobre o assunto. Tenho a honra de desejar-lhe um muito bom dia. — Curvou-se e, virando-se, sem reparar na mão que o rei lhe estendia, saiu comigo em direção ao seu apartamento.

    E foi assim que o reino da Boêmia foi ameaçado por um grande escândalo e que os melhores planos de Sherlock Holmes foram frustrados pela sagacidade de uma mulher. Ele antigamente zombava da esperteza das mulheres, mas ultimamente não o tenho ouvido dizer mais nada. E quando se refere àquele retrato, é sempre sob o título honroso de a mulher.







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tags: Sherlock Holmes, conto, prosa, narração, Irene Adler, ficção policial

4 comentários:

  1. Pense numa pessoa dedicada e atenciosa aos seus alunos. Quem dera todos os professores fossem assim. Até eu fiquei curiosa pra ler esse conto.

    Bjs Di.

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  2. Não posso deixar de falar que a partir de agora TODAS as vezes que me lembrar,ler ou assistir Sherlock irei lembrar de você!
    Adorei o blog 'Rodrigo',muito bom mesmo.. vou usa-ló como material de estudo agora!
    Parabéns professor! Você é incrível :D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela atenção, 'Jéssica'.
      Sherlock é um gênio, e o autor, Conan Doyle, é genial. Diga-se de passagem, é o mesmo que escreveu histórias com o Professor Challenger, como "O mundo perdido" (que virou seriado, exibido e re-re-re-reprisado na Record, ou Bandeirantes, ou ambos). Também não posso tirar o crédito de Edgar Allan Poe, o precursor da ficção policial. Pretendo postar algumas histórias dele também.

      Uma das várias lições que se podem tirar de Sherlock é que toda inteligência excessiva vem acompanhada de loucura maior ainda, além de um pouco de arrogância, que deve ser policiada e controlada.

      Outro aspecto que se pode notar no autor é que, em geral, ele deixa claro que os crimes cometidos vêm de uma motivação provocada pela própria sociedade, deixando evidente a ideia do "bom selvagem" de Rousseau (o homem é de natureza boa. A nossa sociedade é que o corrompe).


      Li três dos quatro romances e mais da metade dos 56 contos de Sherlock escritos por Conan Doyle, mas ainda não li esse conto que postei, pois quero manter um pouco a minha curiosidade sobre o fascínio que Irene exerce sobre o detetive. Aliás, a única mulher capaz de fazer isso.

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